O Brasil é capaz de salvar a América Latina?

Se a última sexta-feira de abril foi um dia útil para você em São Paulo, você provavelmente não deve ter conseguido chegar ao trabalho. Sindicatos do setor público interromperam os serviços de trem, metrô e ônibus, além de bloquearem as principais avenidas da grande metrópole onde vivem 12 milhões de pessoas. A mesma cena pôde ser vista em diversas outras cidades do país, agravando ainda mais os serviços “públicos”, que já são de péssima qualidade.

Chegou a ser uma metáfora irritante, tendo-se em vista os problemas enfrentados pelo Brasil com a sua economia cada vez mais travada.  Mas boas notícias parecem estar a caminho.

Os sindicatos estão fazendo de tudo para barrar as reformas previdenciária e trabalhista: não querem a mudança de leis tão “generosas” para os trabalhadores, mas que ameaçam quebrar as finanças públicas e muitas empresas privadas. O gasto atual com aposentadorias consome quase metade do orçamento governamental. A economia encolheu em todos os trimestres nos últimos dois anos. Déficit orçamentário, tributos, dívida pública, inflação e desemprego estão todos elevados e continuam subindo.

Durante a década de 1990, a economia brasileira parecia ser uma das mais promissoras do hemisfério sul. Quinto maior país do mundo tanto em área quanto em população, abençoado com abundantes recursos naturais, o Brasil parecia ter deixado para trás todos seus problemas inflacionários, de crise econômica e de instabilidade política. E então os socialistas trataram de comprometer o futuro.

Há 15 anos, quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente, o Brasil passou a adotar o socialismo do Partido dos Trabalhadores. Não chegava a ser tão radical quanto a versão expropriadora da Venezuela ou a guerrilheira-castrista de Cuba, mas um socialismo mais moderado: um incremento absurdo de novas regulações e um aumento fora do comum de gastos governamentais com tudo, englobando desde “infraestrutura”, salário de servidores, programas de assistência social até as absurdas pensões que permitem que muitos empregados do governo se aposentem integralmente com cinquenta e poucos anos. Nesse vídeo da Prager University, o jornalista brasileiro Felipe Mauro Brasil descreve “como o socialismo destruiu o meu país”: https://youtu.be/bKhR9i5CGkA

Seja Venezuela, Brasil ou qualquer outro país latino preso ao emaranhado socialista em anos recentes, o resultado é dos piores possíveis. Isso lembra uma frase famosa de Oliver Hardy, da dupla O Gordo e o Magro: “Esta é mais uma bela confusão em que você me meteu!”. (De fato, esta pequena montagem de vídeos de O Gordo e o Magro serve para lembrar aos brasileiros o que eles tiveram de enfrentar por causa de uma burocracia intrometida e incompetente e de pretensiosos planejadores do governo central. Seja como for, os brasileiros precisam dar uma boa risada neste exato momento: https://youtu.be/cIPfEBuA7HY).

Depois de quatro anos do governo Lula, de acordo com o Índice de Liberdade Econômica, o Brasil caiu de uma posição de “moderada liberdade” para “pouca liberdade”. De 190 países, o Brasil ocupa agora a posição 140 em liberdade econômica, ficando entre o Burundi (posição 139) e o Paquistão (posição 141). Para quem quer ser empreendedor, o Brasil é um lugar nada atraente; o Banco Mundial afirma que é mais fácil fazer negócio em outros 122 países do que no Brasil.

A liberdade começa a ganhar força

No começo de abril, três integrantes da FEE (Jason Riddle, Jeffrey Tucker e eu) viajamos para Porto Alegre, no sul do Brasil, para palestrar em eventos ligados ao Instituto de Estudos Empresariais. Seu Fórum da Liberdade, que ocorre anualmente, reúne milhares de brasileiros (em sua maioria, estudantes), que se conectam e ouvem palestras sobre negócios e livre-mercado. Jeffrey escreveu sobre isso em um artigo de 17 de abril: o movimento da liberdade brasileiro é um modelo para o mundo.

(A propósito, depois dos EUA, o Brasil está na primeira colocação mundial de traduções, republicações e reimpressões de materiais da FEE, seguido pela Polônia. Na página de Facebook da FEE, seguidores brasileiros superam os de qualquer outro país, exceto os EUA. Na minha página pessoal no Facebook, os seguidores brasileiros estão na quarta posição, atrás apenas dos EUA, Venezuela e Polônia.

O grande tópico do Fórum da Liberdade desse ano em Porto Alegre foi uma série de escancarados escândalos políticos que se agravam a cada semana, com novas revelações e indiciamentos daqueles que ocupam os postos mais altos do governo brasileiro. Em 2016, Dilma Rousseff, a candidata escolhida a dedo por Lula para sucedê-lo na presidência, sofreu impeachment e foi retirada do poder, em grande parte por maquiar informações fiscais e por cobrir a corrupção na Petrobrás, a empresa petrolífera estatal. O presidente atual, Michel Temer, está sob investigação por supostamente aceitar propina, assim como muitos de sua administração, do Congresso Nacional e de empresários e políticos clientelistas. No final das contas, as várias investigações de atos ilícitos de gente do governo e de troca de favores culminaram na descoberta do maior esquema de corrupção da história política brasileira, e essa história pode estar longe de acabar.

A corrupção que assola o sistema político brasileiro é a consequência previsível de um governo de tamanho e escopo monstruoso. Os brasileiros estão começando a se dar conta de que socialismo não é apenas uma conversa amigável abstrata sobre fazer coisas boas para as pessoas; na prática, ele concentra poder e dinheiro, enquanto a classe política forra os bolsos e os demais são enganados.

Conforme o humorista P. J. O’Rourke certa vez afirmou: “quando o comércio é controlado pela legislação, a primeira coisa a ser comercializada são os legisladores”. A solução não reside na simples substituição de políticos; é necessário reduzir drasticamente o número de cadeiras nas duas casas legislativas, e diminuir o poder que eles possuem sobre outros. Como escrevi em outro momento, governo grande e bom governo são coisas totalmente incompatíveis.

A crescente ojeriza por parte do público brasileiro em relação ao socialismo e aos socialistas é exacerbada pelas táticas destrutivas usadas pelos sindicatos. E isso também acaba por oferecer uma oportunidade educacional fantástica para os que amam a liberdade. Matheus Pacini, que traduziu e distribuiu muitos artigos da FEE no Brasil, afirma: “o movimento da liberdade está crescendo aqui, com vários think tanks a favor do livre-mercado propondo formas de resolução dos problemas mais prementes. É um esforço continuado que seguirá sendo decisivo para moldar o futuro do Brasil”.

Júlio Lamb é presidente da IEE, um grupo que trouxe milhares a um conferência em que meus colegas da FEE e eu participamos em abril. “O Brasil jamais teve um ambiente tão propício para o florescimento de ideias liberais”, ele me disse em um de seus e-mails nessa semana. “Essas ideias estão se espalhando na sociedade por meio de jovens em escolas e universidades e think-tanks de todo o país. O Brasil, hoje, possui mais de 200 think-tanks e organizações liberais clássicas. Alguns anos atrás, havia menos de dez. Eles estão clamando por mudanças que o Brasil precisa, e estão ganhando força. Foi por causa de seu bom trabalho que o impeachment da ex-presidente Rousseff foi possível, e a razão pela qual, nas últimas eleições, tantos políticos mudaram de ponto de vista na direção certa”.

“A liberdade no Brasil”, Lamb proclama com confiança, “está apenas começando a emergir”.

Adriano Gianturco concorda. Ex-participante de um seminário da FEE, ele agora é professor de ciência política no Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC) em Belo Horizonte. No começo deste ano, ele e a coautora Luciana Lopes Nominato Braga escreveram um artigo sobre esse desenvolvimento promissor. O artigo tem o intrigante título: “Por que os brasileiros estão pedindo menos Marx, Mais Misses” (fee.org/article/why-brasilians-are-demanding-menos-marx-mais-mises).

Trabalhando para construir outro Brasil

As eleições do próximo ano são a melhor oportunidade política de curto prazo para mudanças significativas no Brasil. Em outubro de 2018, o país vai eleger um novo Presidente e um novo Congresso Nacional (dividido em duas câmaras, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal). Serão eleitos 513 deputados federais e haverá uma renovação de 2/3 do Senado.

O Partido dos Trabalhadores  está em ruínas e agora mais de 30 partidos políticos vão entrar em disputa para juntar os pedaços.

Marcel van Hattem é um deputado estadual liberal na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, o estado localizado no sul do Brasil e no qual fica a cidade de Porto Alegre. Ele está planejando concorrer a uma vaga no Congresso Nacional no ano que vem. Sua página no Facebook possui quase 300.000 seguidores e seu website está recheado de artigos e vídeos que oferecem análises convincentes e viáveis, soluções de mercado para a crise socialista no Brasil. Ele cita Thomas Jefferson e Milton Friedman como se fossem velhos conhecidos. As pessoas falam muito bem dele e acho que ele será eleito. Quando eu o encontrei no mês passado, eu até brinquei que deveria pegar seu autógrafo agora, enquanto ainda é possível.

“Depois que milhões foram para as ruas no Brasil para protestar contra um governo socialista, corrupto e incompetente” van Hattem contou, “finalmente conseguimos o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff no primeiro semestre de 2016. Depois, em outubro, o partido dela, o Partido dos Trabalhadores, sofreu a maior derrota da sua história nas eleições locais para prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, caindo da terceira posição para a décima entre os partidos brasileiros”.

“Com a aproximação da eleição de 2018, temos a grande chance de eleger deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores e, quem sabe, um presidente da República com ideias mais abertas a um livre-mercado, à democracia e à prosperidade.”

Como van Hattem sempre diz: “Eu não quero viver em outro país. Eu quero viver em outro Brasil – e tenho certeza de que os eleitores farão com que isso se torne uma realidade”.

Eu não sou nenhum especialista no Brasil. Estive lá apenas quatro vezes desde a segunda metade da década de 1980, por um período de tempo que, no seu todo, não passa de três semanas. Eu não estou a par de quanto tem sido feito até o momento para se recrutar candidatos viáveis e bem articulados como Marcel van Hattem e que irão carregar a chama da liberdade e do livre mercado nas eleições de 2018. Mas eu sei que, se o Brasil se salvar, ficando livre de socialistas e colocando em lugar deles pessoas como van Hattem, isso também poderá salvar a América do Sul. O que acontece no Brasil não fica no Brasil. As implicações de mudanças no Brasil são enormes para o continente.

Grandes transformações na política, economia e na sociedade são possíveis quando ocorre um extraordinário alinhamento de ideias, eventos e personalidades. Recordemos o colapso da União Soviética três décadas atrás. No campo das ideias, o comunismo tinha se tornado uma piada cruel e, como sistema, um evidente fracasso. Então a Hungria abriu suas fronteiras para a Áustria e milhares fugiram. Alguns meses depois, vieram as eleições na Polônia e a queda do muro de Berlin. Entre as personalidades mais importantes na luta contra o comunismo estavam Reagan, Thatcher e João Paulo II, assim como líderes dissidentes que vão de Havel até Walesa, e milhões de outros indivíduos corajosos. Um alinhamento de ideias poderosas, eventos e personalidades e então… bum! Tudo se foi.

Poderá um alinhamento como esse dar origem a uma grande transformação no Brasil? Os próximos meses vão dar a resposta. Eu estou mais do que otimista com respeito aos nossos amigos brasileiros.

(Por Lawrence Reed da Foundation for Economic Education)
(Post original: https://fee.org/articles/can-brazil-save-latin-america/)

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